Chafetz Chaim – Introdução (4)
E refleti para entender por que esta proibição se tornou algo sem dono, desconsiderado por tantas pessoas.
E percebi que isso se deve a várias razões: de um lado, para as pessoas simples, e de outro lado, para os estudiosos.
As pessoas simples não sabem que a proibição de lashon hará vale também para o que é verdade. E quanto aos estudiosos da Torá, embora saibam que o lashon hará se aplica também à verdade, há alguns deles a quem o mau instinto (yetser hará) engana. Uma das formas é dizer que aquele sobre quem se fala o lashon hará é considerado um bajulador hipócrita (chanef), sobre quem é permitido falar lashon hará, pois é uma mitsvá expor os hipócritas e os perversos.
E às vezes lhe diz: "Fulano não é um briguento? É permitido falar lashon hará sobre ele."
E às vezes o seduz com a permissão de "Apei Telata" (diante de três pessoas).
E às vezes com a permissão de "Apei Mara" (diante da pessoa de quem se fala), pois ele mesmo concorda, no momento em que conta, que diria aquilo também na presença dela. E o mau instinto lhe revela todas as passagens relacionadas a essas permissões.
E às vezes o convence de que aquilo que ele conta, em si, não é considerado lashon hará, como, por exemplo, quando conta que alguém não é sábio.
Em resumo: ou o seduz dizendo que tal coisa não está incluída de modo algum na proibição de lashon hará, ou que sobre uma pessoa como aquela a Torá não proibiu falar lashon hará.
E se o mau instinto vê que nesses assuntos não vencerá, engana-o pelo lado oposto: mostra-lhe que tudo está incluído no lashon hará, e que, sendo assim, é impossível viver neste mundo sem se afastar dos assuntos do mundo. Semelhante à calúnia da serpente astuta (Gênesis 3:1): "Será que D'us disse: Não comereis de nenhuma árvore do jardim?"
E além disso, falta a muitas pessoas o conhecimento a respeito da proibição de aceitar (acreditar em) lashon hará: que a proibição é até mesmo acreditar no coração, sendo permitido apenas tomar precaução. E também não sabem como reparar caso tenham transgredido a proibição de lashon hará e de rechilut.
E por causa dessas razões, o assunto desmoronou por completo. Pois, consequentemente, a pessoa se acostumou a falar tudo o que lhe vem à boca, sem refletir se aquilo está incluído no lashon hará. E nos acostumamos tanto a esta proibição que, aos olhos de muitas pessoas, ela não é considerada pecado de modo algum. Mesmo que alguém fale lashon hará e outro lhe pergunte: "Por que você falou lashon hará e rechilut?", pensará em seu coração que ele veio para fazê-lo um tsadik e um chassid, e não aceitará as palavras de quem o repreende, já que vê que o assunto é desconsiderado por todos.
E todas essas razões se devem ao fato de que não foram reunidas num só lugar todas as leis de lashon hará e rechilut, de forma que seus detalhes e minúcias fossem explicados; ao contrário, elas estão espalhadas pelo Talmud e pelos codificadores da lei (posekim). E mesmo o Rambam, no capítulo 7 das Leis de Deot, e Rabênu Yoná, no Shaarê Teshuvá, que nos abriram um caminho pavimentado nesta lei, foram muito breves, conforme o costume dos Rishonim. E há também muitas leis que não aparecem em suas palavras.